Um príncipe hindu que liderou uma reforma
A história de Gautama Siddharta, o Buda
Gautama Siddharta
Um príncipe hindu, Sidarta Gautama, nasceu aproximadamente na mesma época em que o profeta Daniel chegou à Babilônia. Ele cresceu em um palácio no norte da Índia (atual Nepal). Seu pai, o rei Sudodana, era o líder de um grande clã chamado Shakya. Sua mãe, a rainha Maya, morreu pouco depois de seu nascimento. A vida do príncipe Sidarta pode ser dividida em três partes. A primeira foi o período de prosperidade.
Prosperidade
Quando o príncipe Sidarta tinha poucos dias de vida, um homem santo profetizou que ele seria um grande conquistador militar ou um grande mestre espiritual. O rei Sudodana preferiu a primeira opção e preparou seu filho de acordo. Criou o menino em meio ao luxo e o protegeu do conhecimento da religião e do sofrimento humano. Aos 19 anos, o príncipe Sidarta se casou. Chegou aos 29 anos com pouca experiência do mundo além dos muros de seu opulento palácio.
Certo dia, tomado pela curiosidade, o príncipe Sidarta pediu a um cocheiro que o levasse em uma série de passeios pelo campo. Nessas jornadas, ele ficou chocado ao ver um velho. Percebeu a realidade do envelhecimento e o declínio da força física. Em seguida, avistou uma pessoa doente e compreendeu a verdade sobre a doença, a dor e a fragilidade da saúde. Um cadáver jazia à beira da estrada, o que lhe trouxe à mente a inevitabilidade da morte e a impermanência da vida. As duras realidades da velhice, da doença e da morte o abalaram profundamente.
Finalmente, ele avistou um santo errante que era um asceta. O cocheiro explicou que o asceta estava em busca de paz e de respostas para o sofrimento através da renúncia aos prazeres mundanos.
Conhecidos hoje como os Quatro Encontros Passageiros, esses encontros — um velho, um doente, um cadáver e um asceta pacífico — convenceram o Príncipe Sidarta Gautama da universalidade do sofrimento e deram início à segunda fase de sua vida, a renúncia.
Renúncia
Por um tempo, o príncipe Sidarta retornou à vida no palácio, mas não encontrou prazer nela. Nem mesmo a notícia de que sua esposa Yasodara havia dado à luz um filho o agradou. A criança foi chamada de Raúla, que significa “grilhão”.
Certa noite, ele vagou sozinho pelo palácio. Os luxos que outrora o agradaram agora lhe pareciam grotescos. Músicos e dançarinas haviam adormecido e estavam espalhados pelo chão, roncando e tossindo. O príncipe Sidarta refletiu sobre a velhice, as doenças e a morte que os alcançariam e transformariam seus corpos em pó.

Foi então que ele percebeu que não podia mais se contentar em viver como um príncipe. Naquela mesma noite, ele deixou o palácio, raspou a cabeça e trocou suas vestes de príncipe por um manto de mendigo. Então, começou sua busca pela iluminação.
Sidarta começou buscando mestres renomados, que o ensinaram sobre as diversas filosofias religiosas de sua época, bem como sobre como meditar. Mas, após ter aprendido tudo o que eles tinham a ensinar, suas dúvidas e questionamentos persistiram, então ele e cinco discípulos partiram em busca da iluminação por conta própria.
Nos seis anos seguintes, os seis companheiros tentaram encontrar a libertação do sofrimento por meio da disciplina física — suportando a dor, prendendo a respiração, jejuando quase até a inanição. Mas um dia, devido à fraqueza causada pelo jejum, ele quase se afogou enquanto tomava banho. Percebeu então que, ao renunciar ao prazer, havia apreendido o seu oposto — a dor e a automortificação.
Iluminação
Sidarta iniciou a terceira parte de sua vida. Ele começou a considerar um Caminho do Meio entre os dois extremos do prazer e da dor. Lembrou-se de uma experiência de sua infância, quando sua mente havia alcançado um estado de profunda paz. Passou a acreditar que o caminho para a libertação e a iluminação passava pela disciplina da mente. Percebeu que, em vez de passar fome, precisava de alimento para fortalecer-se para o esforço. Mas quando aceitou uma tigela de leite de arroz de uma jovem, seus companheiros presumiram que ele havia desistido da busca e o abandonaram.
Em busca da iluminação, Sidarta passou sete semanas em meditação contínua sob uma figueira sagrada (Ficus religiosa), conhecida desde então como a Árvore Bodhi. Durante esse período, ele percebeu o que ficou conhecido como as Quatro Nobres Verdades.

- O sofrimento é a condição humana básica.
- O sofrimento é causado pelo desejo e cobiça.
- A solução é extinguir o desejo e a cobiça.
- O método para eliminar o desejo é através do Caminho Óctuplo, uma abordagem prática para viver a vida seguindo oito princípios interligados de sabedoria, conduta ética e disciplina mental.
Assim, Sidarta Gautama alcançou a iluminação e tornou-se um Buda, ou um ser iluminado. Ele acreditava ter descoberto a verdadeira compreensão da vida. Negando a existência de Deus, da alma ou de seres espirituais, o Buda ensinava que o karma (causa e efeito) de vidas passadas resultava no ciclo constante de nascimento, morte e renascimento (reencarnação). Ele acreditava que a única maneira de se libertar do domínio implacável do karma era através do esforço individual.
Inicialmente, o Buda relutava em ensinar, pois o que ele havia compreendido não podia ser comunicado em palavras. Somente através da disciplina e da clareza mental as ilusões se dissipariam e a iluminação seria alcançada. Os ouvintes sem essa experiência direta ficariam presos a ideias teóricas e certamente interpretariam mal tudo o que ele dissesse. Mas a compaixão o persuadiu a tentar. E assim ele iniciou uma reforma religiosa de Hinduismo.
Após alcançar a iluminação, ele foi para o Parque dos Cervos em Isipatana, localizado no que hoje é a província de Uttar Pradesh, na Índia. Lá, encontrou os cinco companheiros que o haviam abandonado e para eles proferiu seu primeiro sermão. Em vez de ensinar doutrinas sobre a iluminação, o Buda optou por prescrever um caminho de prática através do qual as pessoas poderiam alcançar a iluminação por si mesmas.

O Buda dedicou-se ao ensino, atraindo centenas de seguidores. Eventualmente, reconciliou-se com seu pai, o rei Sudodana, sua esposa, a devota Yasodara, tornou-se freira e discípula. Raúla, seu filho, tornou-se monge noviço aos 7 anos e passou o resto da vida com o pai.
O Buda viajou e ensinou incansavelmente até sua morte, aos 80 anos, em Kushinagar, localizada no atual estado de Uttar Pradesh, na Índia, por volta de 483 a.C. O local é marcado pela Estupa do Parinirvana e é considerado um dos quatro locais de peregrinação mais sagrados para os budistas.
Suas últimas palavras aos seus seguidores teriam sido: “Eis, ó monges, este é o meu último conselho para vocês. Todas as coisas que compõem o mundo são mutáveis. Elas não são eternas. Esforcem-se para alcançar a sua própria salvação.”
Um período de grande busca espiritual
O Sidarta Gautama viveu durante um tempo de grande inovações no mundo. Entre aproximadamente 600 e 400 a.C., diferentes civilizações produziram algumas de suas figuras religiosas e filosóficas mais influentes. O filósofo Karl Jaspers chamou esse período de “Era Axial”, pois foi uma época em que muitas culturas, independentemente umas das outras, começaram a refletir profundamente sobre a verdade, a ética, o sofrimento e o sentido da vida.
Neste período, observamos:
Daniel, um hebreu que vivia no contexto do exílio e do império babilônico, testemunhou a soberania de Deus entre as nações.
Confúcio, que ensinou uma visão de ordem moral e harmonia social na China.
Siddhartha Gautama, buscando uma solução espiritual para o problema do sofrimento humano na Índia.
Sócrates, questionando a natureza da verdade, da virtude e do conhecimento na Grécia.
Apesar das grandes diferenças entre suas respostas, todas refletem uma profunda busca humana por sabedoria, justiça e transcendência.
Para os leitores bíblicos, essa comparação também destaca algo importante: enquanto muitas culturas buscavam descobrir a verdade por meio da reflexão filosófica, a tradição bíblica apresenta Deus se revelando na história, mesmo em tempos de crise como o exílio.
Assim, esse período demonstra tanto a universalidade da busca humana por significado quanto a singularidade da revelação bíblica entre as nações.
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