Uma espada que corta a água
O evangelho é capaz de trazer impacto real no mundo budista?
“Meu avô morreu lutando na Segunda Guerra Mundial”, disse meu amigo japonês Yuzo. “Acreditávamos que seu espírito havia sido transferido para o santuário xintoísta Yasukuni, em Tóquio. Por isso, tínhamos um altar xintoísta em casa. Mas minha família também era budista, então tínhamos um altar budista também. Eu acompanhava minha avó em suas orações diante dos altares todos os dias e ia ao templo.
Mas, à medida que fui crescendo, muitas vezes passei a não gostar das coisas que fazia ou dizia. Percebi que minhas atividades religiosas não me transformavam e, pior, eu as usava para tentar manipular poderes espirituais a fim de conseguir o que queria. No fundo, eu sabia que Deus existia. Mas não conseguia encontrá-Lo. Então, tentei ler literatura e filosofia, mas isso não me ajudou.
Certo dia, encontrei um livro novo em uma livraria local. Naquela noite, li os três primeiros capítulos e ali encontrei o Deus Criador que eu procurava há muitos anos. Também entendi de onde vinham as coisas ruins que eu fazia. Aquele livro era a Bíblia.“
Yuzo leu o restante da Bíblia e se converteu ao cristianismo. Prosseguiu seus estudos em teologia e formou-se em medicina. Ele e sua esposa, Hitomi, lideram hoje uma equipe de setenta missionários no Camboja, levando a Palavra da Vida aos povos budistas ainda não alcançados daquela região.
Muitos elementos da história de Yuzo são comuns a povos influenciados pelo budismo em toda a Ásia Oriental. A prática de mais de uma religião simultaneamente. A devoção de orar diariamente diante do altar familiar e as visitas regulares ao templo. A forte coesão familiar e social em torno da religião budista. A incapacidade de lidar com o poder do pecado e da culpa. O desejo por poder espiritual. E a ausência de uma narrativa da criação e de um Deus Criador.
De onde surgiu o budismo?
Ao analisarmos as religiões mundiais, podemos dividí-las em três categorias principais.
Estamos mais familiarizados com o grupo de religiões que têm suas raízes na figura histórica de Abraão – o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.
O termo religião popular1 descreve religiões locais ou nacionais, geralmente menos organizadas, e relacionadas à magia e ao mundo espiritual. Por exemplo, na China, milhões de pessoas cultuam shen (espírito, deus, consciência), que podem ser deuses da natureza, deuses da cidade, dragões e ancestrais. Também pode se referir a expressões populares de religiões mais multinacionais e institucionalizadas, como o cristianismo popular ou o islamismo popular – crença em sistemas mágicos tradicionais e rituais extáticos, uso de altares e amuletos, culto aos gênios (jinn) e incorporação de crenças animistas.
Existe também a família de religiões Dhármicas. A palavra “dharma” vem do sânscrito, uma antiga língua indiana. Não há uma palavra única para dharma nas línguas ocidentais, mas refere-se ao princípio que governa e mantém o universo unido. O dharma enfatiza a ética, a moralidade e as ações que promovem a harmonia e o crescimento espiritual, como a não violência. O conceito de dharma está na base dos principais sistemas religiosos da Ásia – hinduísmo, budismo, sikhismo, entre outros.
O budismo é um movimento de renovação que surgiu do hinduísmo. Essa reforma foi liderada por Sidarta Gautama, mais conhecido hoje como Buda. Para contextualizar as origens antigas do budismo, Gautama era jovem quando o profeta Daniel faleceu!
Em que acreditam os budistas?
Buda ensinou sua compreensão deste mundo através daquilo que ele chamou de As Quatro Nobres Verdades:
1. A vida envolve sofrimento2. Dor, perda, mudança e frustração são a essência básica da vida humana.
2. O sofrimento é causado pelo desejo3. Sofremos porque nos apegamos ao prazer, às posses, às ideias, aos relacionamentos e até à própria vida.
3. A solução é extinguir4 o desejo. Quando o desejo é abandonado, a libertação do sofrimento torna-se possível.
4.Existe um caminho que leva ao fim do sofrimento. O Buda ofereceu um caminho prático para isso, o Nobre Caminho Óctuplo, que molda a maneira como pensamos, vivemos e agimos.
O Buda negou a existência de Deus ou de outros seres espirituais. Não existe uma narrativa budista da criação, pois o Buda ensinou seus seguidores a não se preocuparem com questões sem resposta, mas a se concentrarem na busca da iluminação. No entanto, ele ensinou alguns passos interligados para uma compreensão budista de “salvação” ou libertação. Aqui estão algumas dessas ideias principais.
Carma ou causa e efeito. Carma significa simplesmente “ação”. A ideia básica é que o que fazemos importa. Toda ação coloca algo em movimento e, mais cedo ou mais tarde, haverá consequências. O budismo não fala sobre pecado, mas leva as ações muito a sério. Se você agir de maneiras que causem dano, resultados prejudiciais inevitavelmente virão — talvez rapidamente, talvez muito tempo depois, até mesmo em outra vida. Se você agir bem, bons resultados virão.
Punya, ou acumular mérito. Punya significa construir um “crédito” moral positivo. Quando as pessoas agem com generosidade, bondade ou sabedoria, diz-se que estão acumulando mérito. Esse mérito tem uma qualidade protetora — leva a melhores resultados, apoia o crescimento espiritual e influencia como será a próxima vida. Viver em conformidade com o dharma traz bons resultados; ir contra ele traz o oposto.
Samsara ou renascimento. No budismo e em outras religiões dhármicas, a vida não termina com a morte. Quando o corpo morre, a vida continua em outra forma — talvez como um ser humano, um animal ou até mesmo um inseto. Esse ciclo contínuo de nascimento, morte e renascimento é chamado de samsara. O karma acumulado em uma vida se transfere para a próxima e molda o que vem depois.
Nirvana ou libertação. Nirvana significa literalmente “extinguir-se”, como uma chama que se apaga. É a libertação do karma e do ciclo infinito de renascimento. Ao alcançar o nirvana, a ideia de um “eu” permanente e fixo desaparece. Não há uma essência duradoura no âmago das coisas — tudo é impermanente e vazio. Às vezes, é descrito como um estado de profunda paz, como um sono sem sonhos.
Por fim, uma ideia fundamental nos ensinamentos budistas é que a única pessoa capaz de me salvar sou eu mesmo. O Dalai Lama é talvez o mais conhecido de todos os mestres budistas. Ele ilustra esse princípio com muita clareza: “Devemos assumir a responsabilidade direta por nossa própria vida espiritual e não depender de ninguém nem de nada. Se outro ser fosse capaz de nos salvar, certamente já o teria feito!”.5
Mais de cinquenta por cento da população mundial vive no Sul e Leste da Ásia. É a região com maior diversidade religiosa do mundo, mas, ao mesmo tempo, a visão de mundo predominante é budista. Mais do que budistas, é importante ver essa região como repleta de povos influenciados pelo budismo, que somam mais de um bilhão na Ásia.
A Ásia está se desenvolvendo muito rapidamente. Tanto as paisagens quanto os estilos de vida estão passando por grandes transformações devido à modernização, à globalização e à adoção de tecnologias. Mas, diferentemente do Ocidente, onde a modernização significou secularização (a perda da crença religiosa), para a grande maioria dos asiáticos orientais, o mundo espiritual permanece ativo e presente em todos os aspectos da vida.
A natureza de sua comunidade, identidade social, religiosa e nacional faz com que muitas pessoas não consigam conceber seguir qualquer religião que não seja o budismo. O evangelismo no mundo budista tem sido descrito como “uma espada que corta a água”. Pode causar ondulações temporárias, mas a água retorna rapidamente ao seu estado original, sem deixar vestígios do corte.
O resultado é que apenas um em cada dez asiáticos conhece um cristão. Esta parte do mundo, com sua vasta população influenciada pelo budismo, é a região menos alcançada do planeta.
Notas
1. ou religião étnica ou religião primitiva
2. dukkha — frequentemente traduzido como sofrimento, mas também incluindo insatisfação, impermanência e inquietação.
3. tanhā – desejo ou apego.
4. nirodha – a cessação do desejo.
5. Dalai Lama. O Pequeno Livro da Sabedoria. Rider, 2000, p. 112.
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